sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Raízes II


É muito difícil falar dela, a minha mãe. Eu a amava quando ela estava alegre, ela tinha muito senso de humor que me fazia sorrir, quando estava de mau humor saísse de perto, sua maior qualidade era o amor ao trabalho, o que nós não gostávamos era o ciúme possessivo que passou das filhas às netas.

Veio de uma família humilde, lutaram com muita dificuldade para sobreviver com uma família composta por doze filhos, cedo arrumou os seus poucos pertences e veio para a capital tentar um emprego. Não adiantou a chantagem dos irmãos, primeiro com a mãe viúva e depois o que a família e os vizinhos iriam dizer; veio assim mesmo, chegando a cidade para sossêgo da família hospedou-se na casa de uma tia, Tinha contra ela a idade, era de menor e pouca instrução, a idade até que não atrapalhou, era alta e bem proporcionada e foi à luta.

Depois de muito procurar, encontrou uma vaga no manicômio da cidade, a diretora à recebeu bem, perguntou se ela aceitava o trabalho que era muito, e as condições do hospital eram horríveis " Se hoje ainda é assim, imagine muitos anos atrás." Minha mãe o comparava ao um inferno, onde tinha os gritos e os ranger de dentes.

Assim mesmo depois das intruções da diretora que simpatizou com ela, aprendeu tudo rápido o que deveria ser feito, cuidar das pacientes: Desde o banho quente que fazia parte do tratamento, injeção, curativos, banho de sol com os pacientes que estavam melhores.

Para compensar de certa forma o sofrimento que ela assistia no dia-a-dia, amava as coisas que a vida podia oferecer.

Uma de suas irmãs mais velhas tinha feito um bom casamento, com o dono da padaria local, ele músico, organizou a banda da cidade. Sempre aos sábados havia um baile, ela aproveitava a sua folga e voltava à cidadezinha e dançava até a madrugada tomava vinho, cantava e fumava em público; escandalizando a pequena cidade " Era uma mulher à frente do seu tempo".

Os irmãos não falavam com ela, só a mãe e as irmãs. Elas muito católicas continuavam a orar por ela. A mãe só sossegou quando um dos filhos veio à capital e conseguiu alugar uma casa, para ela ficar perto da filha.

O meu pai entra em cena quando foi fazer uma pequena reforma e a pintura do prédio, dando um aspecto melhor à aquela casa de tanto sofrimento.

Aconteceu um caso bizarro, correu um boato que chegou ao conhecimento da minha avó, que a minha mãe tinha enlouquecido, antigamente dizia-se que quem trabalhava com doido adoecia também, a minha avó mandou o irmão mais novo averiguar, chegando ao asilo ele avistou a minha mãe, ela estava despenteada devido a forte ventania, ela surpresa com a visita aquelas horas, correu ao encontro dele, ele saiu correndo, quanto mais ela corria, ele corria mais, chegando em casa disse é verdade mãe ela quase me pegou. Precisou a minha mãe ir lá mostrar ao pessoal que ela estava bem, assim mesmo todos desconfiados, sem querer acreditar.

Casou-se com meu pai, como manda o figurino de véu e Capela, ela continuou trabalhando em casa, para sossêgo da minha avó e da família. Tiveram quatro filhos, dois casais, ela tinha preferência pelos filhos homens, ela afirmava claramente a preferência. Eu e minha mãe não tinhámos muita afinidade, vivíamos ás turras, eu não era de brigar e ficava calada, talvez com medo da agressão, mais dentro de mim, tinham pensamentos horríveis em relação à ela, preferindo mais o meu pai, vivíamos guerriando, eu calada e ela esbravejando para ver a minha reação. Após muitos anos,quando meu pai faleceu, ela passou a conviver com as duas filhas!Um tempo morando com a minha irmã e comigo, sendo que na nossa casa ela ficava mais tempo, devido aos netos que ela adorava a companhia deles. Precisava minha irmã vir buscá-la, às vezes inventava que estava doente e que precisava ir ao médico retardando assim a sua volta.

Quando eu vi meus filhos à amarem tanto, um sentimento de culpa batia, achando que se eu tivesse aceitado como ela era, teria sido melhor a convivência, mais tarde no início da doença a minha irmã atendendo aos seus pedidos veio deixá-la, ela queria está comigo e com seus netos, ainda viveu alguns anos, foi a oportunidade que me foi dada, para resgatar um pouco dos meus débitos para com ela.

Ela me amou ao seu modo!Se nunca me disse ou me beijou foi por vergonha!A educação que recebeu foi muito rigida,mas guardava as coisas bonitas e boas sempre para mim,e "ninguém mexia que não era doido!"

É preciso muita paciência e muito amor para cuidar de uma pessoa com o mal de Alzheimer, só quem cuida é que sabe como é preciso.


Perdoa-me mãe, por não aceitá-la como a senhora era e sim como eu gostaria que a senhora fosse! Fique em paz!

Instantes


Se eu pudesse novamente viver a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.Seria menos higiênico. Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,subiria mais montanhas, nadaria mais rios.Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvetes e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e profundamente cada minuto de sua vida;claro que tive momentos de alegria.Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente de ter bons momentos.Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;não percam o agora.Eu era um daqueles que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e, se voltasse a viver, viajaria mais leve.Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono.Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo...'


Eustáquio Gomes - Poeta argentino

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Meus quinze anos



A minha festa de quinze anos foi um festejo "sui gêneres", não teve bolos, refrigerantes, ponches e outras iguarias que costumam ter nesses eventos.
O meu pai, cismou em festejar meu aniversário, não sei se foi um motivo para uma reunião como sempre fazia, com amigos da mesma idade, com muitas músicas e comes e bebes; eu gostei, levava uma vida sem muitas emoções.
Ele chegou em casa, participou a minha mãe, ela consentiu desde que a minha tia à ajudasse! ficou acertado que seria um almoço típico, o cardápio era completo de: Sarapatel, buchada e frango guisado para aqueles que não gostassem de "comidas pesadas", eu por exemplo. Para completar muita agulha assada na brasa, que servia como tira-gosto (peixe-agulha).
Bebidas: muito vinho, "leite de onça"(cachaça misturada com leite condensado), e batidas de maracujá.
Os convidados eram dois cantores da rádio local e mais quatro amigos deles e um dentista amigo do meu pai. De mulher tinham a minha mãe, minha tia e eu. Não precisa dizer que me achei o máximo, me senti uma princesa, rodeada de rapazes tão bonitos! O melhor ainda estava para vir! Antes do almoço já com a mesa posta, um dos cantores pegou um violão e cantou, ÚLTIMO DESEJO de Noel Rosa; e o outro me ofereceu ROSAS DE MAIO uma canção gravada pelo cantor Carlos Galhardo, não precisa dizer da minha emoção, não sabia se sorria ou chorava!
Até hoje, acho estas músicas lindas, comprei o filme de Noel, só para ver e ouvir o"último desejo".
Foi um aniversário inesquecível, tive assunto para muitos dias, matando de inveja às minhas colegas.
Não é que neste aniversário, me bateu uma saudade, fiz os meus netos pesquisarem na internet, para ver se encontravam "Rosas de Maio", depois de uma busca àrdua, encontraram na voz de um outro cantor, Orlando Silva, eles pegaram a partitura e ensaiaram, no dia do meu aniversário cantaram em dupla, a canção tão sonhada que me levou à um passado longíquo. Desta vez não foi com o violão e sim com um teclado, mais valeu e como! O meu filho queria saber da história, eu disse: Depois eu conto...

Raízes

A história que vou contar é de um amor impossível, cercado de preconceitos, principalmente social e racial.

Ela foi a moça que nós chamamos de bem criada, estudava em um dos melhores colégios da capital.
Ele, pobre, cor parda, cabelos encaracolados, só tinha à seu favor o seu trabalho bem feito. Muito tímido, mal falava, talvez não tivesse muito o que dizer. Por ser sobrinho da cozinheira, era permitido que fizesse as refeições na cozinha da casa grande.

Na região do Nordeste, imperava as leis dos "Coronéis", as suas fazendas de muitas terras, gado, plantações, eram verdadeiros feudos. A sua palavra era lei, e os seus empregados que perjorativamente eram chamados de "capangas".

Foi em um lugar assim que a Sinhazinha apaixonou-se pelo peão, aqui na região chamados de vaqueiros. Numa das férias ela o conheceu na hora que ele estava fazendo a primeira refeição, ela veio tomar um copo de leite quente, aproveitando a oportunidade para saber as novidades com a empregada que a viu nascer. Ele estava lá, quase morrendo de vergonha, terminou a refeição e saiu; passou a fazê-la mais cedo para poder estar mais à vontade, ela continuou todos os dias tomando seu leite e pedindo informações dele à empregada: o nome; de que região tinha vindo; e soube assim tudo que queria a seu respeito.

Me pergunte o que ela viu nele? Eu não saberia responder. A distância da posição social e cultural entre eles era muito grande, só muito amor justificava tudo.

Ela voltou ao colégio, ele ficou mais tranquilo, agora ele podia fazer suas refeições mais à vontade, até que um dia foi pego de surpresa! Ela tinha voltado novamente de férias, essas mais prolongadas, eram férias de fim de ano. Ai o cerco aumentou, houve muitos encontros, sempre na cozinha "estratégia feminina", ela fez ele falar perguntando muito, dali até o fim das férias o gelo tinha quebrado. Sei que nas próximas férias eles fugiram.

Não é preciso dizer que foram perseguidos, pediram abrigo justamente na fazenda de um desafeto político; que não só os acolheu, como fizeram o casamento.

Eles ganharam acomodações melhores do que as casinhas dos outros moradores. Ela retribuiu se tornando amiga de todos, ensinando trabalhos manuais " Era no bordado que ela se sobresaía", entre muitas coisas, ensinou e praticou um pouco de puericultura, ensinou as crianças a ler e a rezar, só os mais velhos que ela não conseguiu ensinar, eles diziam: "Papagaio velho não aprende",
era o que eles pensavam na época.
De certa forma foi uma troca, elas as amigas, a ensinaram a cozinhar, criando um ambiente de muito carinho e respeito à seu redor.

Tiveram três filhos, dois meninos e a terceira foi uma menina, quinze dias após ela veio a falecer de parto.

Amor Perfeito
Esta é a história dos meus avós paternos!

Vovó Joaninha e do vovô João, até nos nomes eram iguais.

Ele criou os filhos ajudado pelas amigas que ela fez, não quis mais se casar,
foi fiel ao único amor da sua vida!

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

"Deus tem caminhos por onde o homem não tem estradas." (Meimei)


Ter medo é o mesmo que dizer a Deus:

"Não creio em Ti Senhor".
E isso jamais o faremos.
(Reflexões da Alma)