
Primeiro pecado que eu me lembro foi o da cobiça, eu tinha cinco a seis anos na ocasião, perto de nós morava em uma confortável casa uma senhora com seus dois filhos, um casal.
A minha mãe a conheceu e se tornaram amigas, a tarde depois do almoço ela pedia a minha mãe para eu brincar com sua filha, éramos da mesma idade, como a casa era muito grande tinha um quarto só com os brinquedos, tinha bonecas de todos os tipos e outros brinquedos também.
Eram desquitados, o pai um fazendeiro rico, vinha sempre visitá-los e os enchia de presentes principalmente a menina, eu quase não tinha brinquedos, me via no mundo encantado, mais daqueles brinquedos todos, me apaixonei por uma minúscula sombrinha tecida de fios de lã colorida, cada parte da sombrinha tinha uma cor, predominando o azul e o cabinho torto como se fosse a miniatura de uma sombrinha de praia.
Eu dava todas as dicas, que achava a sombrinha linda, não a tirava de perto de mim, talvez seja um fascínio que os meninos sentem por uma bola, eu senti por aquela sombrinha, por mais que eu achasse bonita ela não dizia nada, ela fazia não entender, e eu pensava, ela tinha tantos brinquedos, custava me dar aquela sombrinha, e eu sentia vergonha de pedir, uma tarde ela me deixou bricando sozinha e foi não me lembro fazer o quê, sei que coloquei a sombrinha em minhas mãos, olhei com tanto amor aquele objeto desejado, e tive um impulso, fiz uma bolinha bem pequena dela, machuquei toda e joguei bem longe, a noite tive tantos pesadelos, acordava suada no meio da noite, dormia e tornava a sonhar com coisas horríveis, tive uma noite pertubada por um pecado de querer ter alguma coisa que pertencia a outrem.
Ela nunca sentiu falta da sombrinha, mais serviu de lição para mim, nunca mais desejar o que não me pertence, por mais insignificante que seja, valeu a lição da sombrinha, pior, não esqueci nunca, quando chega o carnaval para avivar a minha memória as lojas são decoradas com pequenas sombrinhas que são o símbolo do frevo, eu as acho linda, igualzinha a sombrinha dos meus pesadelos, sendo que era uma pequena miniatura, sinto vontade de comprá-la mais a lembrança de outros tempos não deixa, seria o meu inconsciente me culpando, sei lá, quem entende os porões da nossa mente.
Não sei explicar essa fixação por sombrinha, nunca dancei frevo, sou do tempo dos românticos e trágicos boleros.
Tenho uma neta se formando em psicologia, se ela chegar a ler, vai dar muitas gargalhadas, de uma vó tão boba, comparando aos dias atuais.
Que todos tenham um ano novo repleto de muita paz e sem sombrinhas...



