
Fomos cuidar do enxoval, só o necessário, mamãe começou a chorar desde este dia, ela também exigiu só sairíamos de lá depois de casados no católico e no civil, desta vez ela quase saia vitoriosa, pois ele ainda não tinha cinco anos como sargento, e segundo as normas daquela regra não poderíamos nos casar, mas os amigos dele o orientaram para que ele casasse no católico e depois oficializasse a união quando completasse o prazo
O carnaval neste ano caiu em março, logo no início do mês, ele me avisou que não poderia vir passar comigo pois iria resolver uns assuntos, só na segunda-feira estaria voltando, eu nem pensava em ir, a prisão agora era reforçada, mas a minha prima foi passar o carnaval em casa.
Quando voltou ela olhava para mim de forma diferente, ria como se quisesse dizer algo, até que foi forçada a contar o que tinha havido, isto se eu prometesse não contar a ele, eu prometi e ela contou que tinha ido ao baile no clube e se deparou com ele numa mesa com uns cinco amigos, e uma baiana muito linda, sentada em uma das pernas dele, e ele a servindo com um copo de cerveja, eram só alegria, estavam todos altos e tinham pelo jeito bebido bastante, a baiana (sua fantasia) era uma moça que ficou viúva muito jovem e curtia a vida adoidada, fazia parte do rol das amiga dele, aí minha prima fez questão que eles a vissem, quando ele a avistou com a viúva sentada nas pernas, apresentou a minha prima dizendo ser "a prima da mulher que eu mais amo", minha prima se retirou e não sabe de que horas terminou a farra.
Passei uma semana sem querer vê-lo, só tinha a favor dele o meu pai dizendo sempre "minha filha o homem está solteiro e vai se casar, não tem nada de mais se despedir com os colegas, e ela é uma sem juízo qualquer, ele não vai se casar com ela, e sim com você".... mas nada disso adiantava...
Depois de uma semana eu o recebi e devolvi a aliança e me retirei, ele continuava indo todos os dias, faltavam quinze dias para o casamento, ele chamou meu pai e contou o episódio, meu pai respondeu-lhe apenas que "mulher pensa diferente...".
Depois de algum tempo, num dia trinta de março nos casamos, estava um dia chuvoso e apenas mais tarde o sol apareceu e o dia ficou alegre, menos para mim que estava arriscando numa cartada perigosa a minha felicidade. Às 9 horas realizou-se o casamento civil (que só depois seria reconhecido pelo exército) e logo mais as 10 horas e trinta minutos o religioso na igreja de Santa Terezinha, no Tirol em Natal.
Passamos a nossa lua de mel num hotel em Natal, onde uma vida nova começou pra mim, ele foi de uma delicadeza e ternura sem igual, mostrando assim todo o seu amor e respeito por mim, foi a partir desta noite que comecei a amá-lo, não um amor adolescente mas um amor verdadeiro, maduro. Ele sempre me falava "se você não me amar eu tenho amor que vai dar para nós dois", isso depois daquela briga do carnaval.
Vivemos quarenta e sete anos de muito amor, companheirismo, cumplicidade, o respeito era uma constante em nossas vidas.
Se tínhamos brigas? não, apenas algumas divergências que rapidamente eram superadas. O seu maior defeito era o ciúme, ele dizia que era cuidado, zelo. Possuíamos afinidades só na música e no nosso roteiro de viagens.
Meu pai foi seu melhor amigo, ele dizia ser o pai que ele perdeu muito cedo. A minha mãe com o tempo deixou de ser a sogra para ser a mãe, ela aprendeu a amá-lo. Quando ele estava perto do seu desencarne, numa noite ele me chamou e tornou a repetir que eu fui a única mulher que ele amou.
Eu senti muito orgulhosa e feliz, em ter cumprido meu papel de esposa e muito orgulho dele também, um cidadão honrado cumpridor dos seus deveres, de uma dignidade sem máculas, tanto em seu trabalho como militar, no lar e na sociedade. E também por ter sido mãe dos filhos que ele tanto se orgulhava e amava...
Amor de outras vidas? as vezes acho que sim !
Paz, Celina.



