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Morava num bairro tranquilo em Natal-RN,cheguei criança e já estava na adolescência, de tão tranquilo se tornava parado.Até que um dia chegou novidades,para nós e toda a vizinhança!O casarão que dava para os fundos do nosso quintal era de um advogado, que ao se aposentar resolveu mudar-se junto com sua família para sua fazenda em uma cidade vizinha, assim que anunciou a venda da casa a mesma foi comprada,e depois de uma semana já tínhamos vizinhos novos.
A senhora que comprou a casa não veio só, em sua companhia trouxe quatro moças e uns dois empregados. O que chamou atenção de todos foi o modo que as moças se vestiam, com muita elegância e um toque de exagero tanto no vestir e na maquiagem para o local e horário.
Depois de mais ou menos uma semana, terminou a tranquilidade da nossa rua! No inicio pensávamos que era somente uma festa de inauguração da nova residência, mais nos finais de semana eram muitos visitantes ilustres, vinham sempre de automóveis, ai começava um festival, era musicas, gargalhadas, ruidos de copos e louças quebrando, tudo que tinha em uma festa, um barulho!
Os vizinhos começaram a notar que os recém chegados tinham hábitos noturnos, durante o dia era aquela calmaria,quando chegava a noite começava tudo outra vez!
Sei que os vizinhos se revoltaram e foram falar com o dono da maioria das casas,um medico muito rico que morava próximo.O mesmo falou que nada poderia fazer, pois o culpado foi o antigo dono que vendeu a casa sem saber a quem.
Fazer o que?! Como morávamos mais próximo da casa alegre, quintal com quintal, meu pai providenciou aumentar o muro trançando folhas de coqueiros para que não víssemos algo impróprio, principalmente para uma filha adolescente como eu,que morta de curiosidade procurava saber da verdade, mais os assuntos falados eram sussurrados!
Uma manhã, eu sempre me levantava cedo,ouvi alguém me chamando,olhei para todos os cantos e nada! Com a insistência, olhei para o final do muro onde tinha uma fenda grande e não tinha palha de coqueiro, ela me chamava insistentemente, fui lá e perguntei o que ela queria, a qual me perguntou se eu podia escrever uma carta. Antes de responder eu fui lá dentro e perguntei a minha mãe,ela pensou,pensou, e respondeu “Pode ser para a família, negar será horrível, vai menina, mas se for sem-vergonhice você me conta” Minha mãe falava e ao mesmo tempo encarava a moça.
Eu rapidamente fui a cozinha peguei um tamborete,caneta e tinta, o papel das cartas ela trazia, era especial,cheios de corações e cupidos. Me ajoelhei de um lado do murro e a moça ficou de cócoras do outro lado.Era uma carta de amor para alguém que ela tinha conhecido e se apaixonado,ele um sargento da marinha,esteve viajando,e agora estava preparando “o cantinho deles” segundo declaração do mesmo.
Eram cartas de uma singeleza, de uma simplicidade que às vezes eu enfeitava com minhas palavras de paixão, de grande amor!As cartas dele eram apaixonadas, mais respeitosas!
No inicio eu senti um pouco intimidada por aquela moça linda,alta loura,bem vestida, perfumada,trazendo no rosto restos de maquiagem da noite anterior, da noite de farra!
Após terminar a carta nos conversávamos muito. Certa vez ela me contou como conseguiu fugir da fazenda de seu pai,lá pros lados do Norte do pais,vivia isolada de todos.Um dia perto do natal ela viajou a cidade para as compras de final de ano junto com sua mãe e tinha pedido dinheiro para comprar suas coisas,neste dia ela fugiu! Mais tarde ela acabou encontrando a “Dona” que andava em busca de mercadoria nova (era assim que chamava) para a sua casa. Depois pediu para uma das colegas escrever para sua mãe e dizer que estava feliz e não se preocupasse.
As cartas de amor ela não confiava as colegas, elas obedeciam normas rígidas, se a Dona descobrisse era jogada fora da casa!
Ela era uns cinco anos mais velha que eu, mas a nossa linguagem era a mesma, contava coisas da sua juventude na fazenda, as vezes trazia chocolates.Com a convivência ficamos amigas, riamos tanto com as nossas conversas que minha mãe desconfiada perguntava por que achávamos tanta graça .Ganhei uma amiga e ela também!
Chegou o final do ano e viajei para o interior, para a casa de minha avó,lá namorei, conheci meu marido, noivamos e depois casamos.
No dia do meu casamento ela me chamou como sempre bem cedo, na hora que todos ainda estavam dormindo, e me deu um vidro de Água de Colônia, me desejou muitas felicidades e disse que nunca iria me esquecer, e quando escrevesse para minha mãe mandasse noticias para ela também.
Viajei, passei uns anos fora do estado, no inicio pensei nela, depois com a nova vida cheia de afazeres, me esqueci.
Até que chegou o tempo de regressar, mas tarde depois de todas as festas e alegrias, a minha mãe me chamou e disse que tinha recebido uma carta dela na qual se justificava da demora, pois ela mesma queria ter o prazer de me escrever a carta. Na carta ela perguntava por mim e me mandava dizer que estava esperando o primeiro filho e que tinha encontrado a felicidade ao lado do homem amado.Não precisa dizer da minha felicidade de vê-la, enfim, feliz!
Este segredo foi compartilhado com a minha mãe, o meu pai nunca soube e muito menos o marido,ambos tinham muito preconceito com criaturas que não segue a regra, imaginando que pudesse pegar e sermos criaturas iguais a ela.
Paz Celina.