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Amor perfeito |
Ela foi à moça que nós chamamos de bem criada, estudava em um dos melhores colégios da capital.
Ele, pobre, cor parda, cabelos encaracolados, só tinha a seu favor o seu trabalho bem feito. Muito tímido, mal falava, talvez não tivesse muito que dizer. Por ser sobrinho da cozinheira, era permitido que fizesse as refeições na cozinha da casa grande.
Na região do Nordeste, imperava as leis dos "Coronéis", as suas fazendas de muitas terras, gado, plantações, eram verdadeiros feudos. A sua palavra era lei, e os seus empregados que pejorativamente eram chamados de "capangas".
Foi em um lugar assim que a Sinhazinha apaixonou-se pelo peão, aqui na região chamados de vaqueiros. Numa das férias ela o conheceu na hora que ele estava fazendo a primeira refeição, ela veio tomar um copo de leite quente, aproveitando a oportunidade para saber as novidades com a empregada que a viu nascer.
Ele estava lá, quase morrendo de vergonha, terminou a refeição e saiu; passou a fazê-la mais cedo para poder estar mais à vontade, ela continuou todos os dias tomando seu leite e pedindo informações dele à empregada: o nome; de que região tinha vindo; e soube assim tudo que queria a seu respeito.
Pergunte-me o que ela viu nele?! Eu não saberia responder. A distância da posição social e cultural entre eles era muito grande, só muito amor justificava tudo.
Ela voltou ao colégio, ele ficou mais tranquilo, agora ele podia fazer suas refeições mais à vontade, até que um dia foi pego de surpresa! Ela tinha voltado novamente de férias, essas mais prolongadas, eram férias de fim de ano.
Ai o cerco aumentou, houve muitos encontros, sempre na cozinha "estratégia feminina", ela o fez falar, perguntando muito. Dali até o fim das férias o gelo tinha quebrado. Sei que nas próximas férias eles fugiram.
Não é preciso dizer que foram perseguidos, pediram abrigo justamente na fazenda de um desafeto político, que não só os acolheu, como fizeram o casamento.
Eles ganharam acomodações melhores do que as casinhas dos outros moradores. Ela retribuiu se tornando amiga de todos, ensinando trabalhos manuais “Era no bordado que ela se sobressaía". Entre muitas coisas, ensinou e praticou um pouco de puericultura, ensinou as crianças a ler e a rezar, só os mais velhos que ela não conseguiu ensinar, eles diziam: "Papagaio velho não aprende”, era o que eles pensavam na época.
De certa forma foi uma troca, elas as amigas, a ensinaram a cozinhar, criando um ambiente de muito carinho e respeito ao seu redor.
Tiveram três filhos, dois meninos e a terceira foi uma menina, quinze dias após ela veio a falecer em conseqüência do parto.
Esta é a história dos meus avós paternos!
Vovó Joaninha e do vovô João, até nos nomes eram iguais.
Ele criou os filhos com ajuda das amigas que ela fez, não quis mais se casar, foi fiel ao único amor da sua vida!
*Publicado em 11 de setembro de 2009.
Paz Celina