quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O Animal Mudo


“E há nos olhares do animal mudo, palavras que somente compreende a alma dos que sabem.”

(Um poeta hindu)


No entardecer de um dia em que minhas fantasias haviam dominado minha razão, fui passear nos limites da cidade e parei diante de uma casa abandonada e quase em ruínas que revelava a emigração e o triste abandono. E vi um cachorro mísero que jazia nas cinzas, o corpo recoberto de chagas. Olhava o sol que descia para o poente com olhos onde se refletiam todas as sombras do esmagamento e da desesperança.

Parecia compreender que o sol ia recolher seus raios quentes daqueles lugares abandonados, e despedia-se dele com tristeza.

Aproximei-me devagar, lamentando não falar sua língua para poder consolá-lo nas suas aflições. Mas ele se assustou, e com o pouco de vida que lhe restava fez um esforço para se levantar. Não o conseguindo, dirigiu-me um olhar onde se misturavam a amargura da súplica e a doçura da prece, a solicitação e a censura. Um olhar tão expressivo quanto as palavras do homem e as lágrimas da mulher.

Então, meus sentimentos e minhas emoções vibraram dentro de mim, e minha alma compreendeu a linguagem daquele olhar, e traduziu-a em palavras humanas.

Diziam os olhos do cão:

Não me basta, ó homem, a minha desolação? Não basta o que aguentei da perseguição dos teus semelhantes, e das dores das doenças? Prossegue no teu caminho e deixa-me receber em paz, do calor do sol, alguns minutos de vida. Fugi das injustiças e crueldades do homem. E refugiei-me nestas ruínas menos inclementes que sua alma. Deixa-me. Tu és um deles, os habitantes desse mundo imperfeito e cheio de injustiças. Sou um simples animal. Mas servi ao homem com devoção e lealdade, e protegi-o como um bom cão de guarda. Partilhava seus pesares e suas alegrias. Sentia a sua falta quando se ausentava, e recebia-o com júbilo quando voltava. E satisfazia-me com as migalhas de e sua mesa e com um osso de que havia roído toda a carne.”

“Mas, quando envelheci e adoeci, desprezou-me e expulsou-me de sua casa e deixou-me à mercê dos garotos cruéis das ruas, e abandonou-me às moléstias e aos micróbios.

“Sou, ó homem, um animal fraco. Mas encontrei uma semelhança entre mim e muitos dos teus irmãos que, quando perdem suas forças, perdem também seu ganha-pão e seu prestígio.

“Sou como um soldado que serve à pátria com a guerra, na juventude, e cultiva a terra, na idade madura; mas é abandonado e esquecido quando chega o inverno da vida.

“Sou como uma mulher que, moça, alegrou os corações, e esposa, criou os filhos ao preço de mil sacrifícios; mas que quando envelheceu, sofreu o desprezo e o esquecimento. Como és injusto, ó filho de Adão, e como és cruel!”

O olhar do cão falava, e meu coração compreendia e minha alma pena dele e minha pena de todos os homens, meus semelhantes!

E quando fechou os olhos, não quis incomodá-lo, e fui embora.

Do livro ”Uma Lágrima e um Sorriso” de Gibran Khalil Gibran


Paz Celina

7 comentários:

Cacá disse...

Emocionante até não poder mais. Esse Kalil Gigran é maravilhoso em tudo o que escreve. Abração, Celina, e muito obrigado mais uma vez pela resenha do livro. Estou ansioso, hehehe! Ótimo final de semana, paz e bem.

Chica disse...

Puxa, que tocante isso! Lindo! um beijo e um lindo fim de semana, cheio de paz!chica

Toninhobira disse...

Hoje pegou pesado Celina, que texto profundo. Eu diria ainda mais na voz do cão: sou um destes trabalhadores que depois de anos de produtividade e agora aposentado é deixado num banco frio de uma agencia do INSS. Realmente é de emocionar até o calcanhar. Meu abraço terno de carinho.Beijo no seu coração.Bom fim de semana na paz.Flores belas da Primavera pra seu lar.

Maria disse...

Amiga, absolutamente divinal este texto. Tocou-me o coração.
Tenha um maravilhoso fim-de-semana
Bjs do tamanho do infinito
Maria

Sônia Silvino disse...

Celina querida!
Emocionante! Sabes que amo os animais!!!
Vim retribuir o seu carinho e a sua presença que me faz tão feliz!

PRIMAVERA...


“No balé das cores,
Desfilando orquídeas
Vejo minha vida
Como reprise...

Olhos brilhantes
De sonhos tantos...
Mágico instante
Doce release...

Fui primavera
De harmonia , beleza
Tantas certezas...

Bela estação é esta!
Mas, de certo, agora
Sei apenas que chega... E vai embora...” (Rose Felliciano)

Desejo um final de semana cheio de alegrias pra você!

Beijinhos, muitos!

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RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Gibran Khalil Gibran é um iluminado. Feliz de quem se aquece sob as suas luas. Parabéns, Celina!
Querida, às vezes só um terno animal nos compreende, como diz a sua bela citação.
“E há nos olhares do animal mudo, palavras que somente compreende a alma dos que sabem.”
(Um poeta hindu)
Conte a minha simpatia, entendimento e guarda o amor e o carinho que lhe dou no coração.
Beijos e tudo de Bom!
Renata
PS: Se puder, passeie pelos nossos blogs. Sinto que lhe fará bem.

Maria disse...

Amiga, hoje vim especialmente para agradecer a sua doce mensagem de parabéns ao meu filhote Pedro.
Obrigado por todo o seu carinho e amizade.
Que Deus ilumine hoje e sempre o seu caminho.
Bjs do tamanho do infinito
Maria