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É muito difícil falar
dela, a minha mãe. Eu a amava quando ela estava alegre, ela tinha muito senso
de humor que me fazia sorrir, quando estava de mau humor saísse de perto, sua
maior qualidade era o amor ao trabalho, o que nós não gostávamos era o ciúme possessivo
que passou das filhas às netas.
Veio de uma família
humilde, lutara com muita dificuldade para sobreviver em uma família composta
por doze filhos, cedo arrumou os seus poucos pertences e veio para a capital
tentar um emprego. Não adiantou a chantagem dos irmãos, primeiro com a mãe viúva
e depois o que a família e os vizinhos iriam dizer; veio assim mesmo, chegando à
cidade para sossego da família hospedou-se na casa de uma tia.
Tinha contra ela a
idade, era menor de idade e pouca instrução, a idade até que não atrapalhou,
era alta e bem proporcionada, e foi à luta!
Depois de muito
procurar, encontrou uma vaga no manicômio da cidade, a diretora a recebeu bem,
perguntou se ela aceitava o trabalho que era muito, e as condições do hospital
eram horríveis “Se hoje ainda é assim, imagine muitos anos atrás." Minha
mãe o comparava a um inferno, onde tinha os gritos e os ranger de dentes.
Assim mesmo depois
das instruções da diretora que simpatizou com ela, aprendeu tudo rápido o que
deveria ser feito, cuidar das pacientes: Desde o banho quente que fazia parte
do tratamento, injeção, curativos, banho de sol com os que estavam melhores.
Para compensar de
certa forma o sofrimento que ela assistia no dia-a-dia, amava as coisas que a
vida podia oferecer.
Uma de suas irmãs
mais velhas tinha feito um bom casamento, com o dono da padaria local, ele
músico, organizou a banda da cidade. Sempre aos sábados havia um baile, ela
aproveitava a sua folga e voltava à cidadezinha e dançava até a madrugada,além
disso, tomava vinho, cantava e fumava em público; escandalizando a pequena
cidade “Era uma mulher à frente do seu tempo".
Os irmãos não falavam
com ela, só a mãe e as irmãs. Elas muito católicas continuavam a orar por ela.
A mãe só sossegou quando um dos filhos veio à capital e conseguiu alugar uma
casa, para ela ficar perto da filha.
Aconteceu um caso
bizarro, correu um boato que chegou ao conhecimento da minha avó, que a minha
mãe tinha enlouquecido, antigamente dizia-se que quem trabalhava com doido
adoecia também. A minha avó mandou o irmão mais novo averiguar, chegando ao
asilo ele avistou a minha mãe, ela estava despenteada devido à forte ventania,
ela surpresa com a visita aquelas horas, correu ao encontro dele, ele saiu
correndo, quanto mais ela corria, ele corria mais, chegando em casa disse é
verdade mãe ela quase me pegou. Precisou a minha mãe ir lá mostrar ao pessoal
que ela estava bem, assim mesmo todos desconfiados, sem querer acreditar.
O meu pai entra em cena quando foi fazer uma pequena reforma e a
pintura do prédio, dando um aspecto melhor a aquela casa de tanto sofrimento.
Casou-se com meu pai,
como manda o figurino de véu e Capela, ela continuou trabalhando em casa, para sossego
da minha avó e da família. Tiveram quatro filhos, dois casais, ela tinha
preferência pelos filhos homens, ela afirmava claramente a preferência. Eu e
minha mãe não tínhamos muita afinidade, vivíamos ás turras, eu não era de
brigar e ficava calada, talvez com medo da agressão, mais dentro de mim, tinham
pensamentos horríveis em relação a ela, preferindo mais o meu pai, vivíamos guerreando,
eu calada e ela esbravejando para ver a minha reação. Após muitos anos,quando
meu pai faleceu, ela passou a conviver com as duas filhas!Um tempo morando com
a minha irmã e comigo, sendo que na nossa casa ela ficava mais tempo, devido
aos netos que ela adorava a companhia deles. Precisava minha irmã vir buscá-la,
às vezes inventava que estava doente e que precisava ir ao médico retardando
assim a sua volta.
Quando eu vi meus
filhos a amarem tanto, um sentimento de culpa batia, achando que se eu tivesse
aceitado como ela era, teria sido melhor a convivência, mais tarde no início da
doença a minha irmã atendendo aos seus pedidos veio deixá-la, ela queria está
comigo e com seus netos, ainda viveu alguns anos, foi à oportunidade que me foi
dada, para resgatar um pouco dos meus débitos para com ela.
Ela me amou ao seu
modo!Se nunca me disse ou me beijou foi por vergonha!A educação que recebeu foi
muito rígida, mas guardava as coisas bonitas e boas sempre para mim, e
"ninguém mexia que não era doido!"
É preciso muita
paciência e muito amor para cuidar de uma pessoa com o mal de Alzheimer, só
quem cuida é que sabe como é!
Perdoa-me mãe, por não aceitá-la como a senhora era e sim como eu
gostaria que a senhora fosse! Fique em paz!
*No 2° domingo de
maio é comemorado o dia das Mães. Com esta postagem quero homenagear a minha
mãe e todas as mães deste mundo!Desejo paz, e que Deus continue a iluminar
nesta doce e difícil tarefa de ser mãe.
Paz Celina**Publicado
em 04/09/09 com o titulo de ‘Raízes II’